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Tuesday, February 18, 2014

Acupuntura científica uma reflexão

Tende-se a interpretar a acupuntura científica como acupuntura biomédica, como se as explicações desenvolvidas pelas ciências sociais orientando a interpretação do conhecimento mítico – religioso, não fossem uma explicação científica, ou que o entendimento dessa arte – técnica não requeresse a compreensão de seu contexto cultural, sua dimensão psicossocial e/ou espiritual. Ignorando-se também que o conhecimento oriental que, por si só, foi suficiente, durante milhares de anos, para permitir seu pleno domínio e utilização.

Por outro lado os orientais não desprezam os avanços e pesquisas biomédicas associando suas explicações tradicionais ao conhecimento científico “ocidental”. E, ainda paira no ar a pergunta: é possível à ciência ocidental, em seu atual modelo materialista de descrição e pesquisa, compreender as tradições orientais? ou, se vai ser necessário criar uma nova organização do conhecimento e das práticas profissionais, inaugurando um novo paradigma?

A concepção de “paradigma” é essencial para compreender o movimento das comunidades humanas em torno dessas explicações ditas científicas, sua hegemonia ou descrédito, o reconhecimento enquanto ciência ou não. Paradigma é uma realização científica com métodos e valores que são concebidos como modelo ideal; uma referência inicial como base de modelo para estudos e pesquisas que se sucedem.

Thomas Kuhn (1922- 1996), físico americano célebre por suas contribuições à história e filosofia da ciência em especial do processo que leva à evolução do desenvolvimento científico. Em seu livro a “Estrutura das Revoluções Científicas” apresenta a concepção de que "um paradigma, é aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em homens que partilham um paradigma", e define "o estudo dos paradigmas como “o que prepara basicamente o estudante para ser membro da comunidade científica na qual atuará mais tarde".

É um desafio para o praticante ocidental conciliar o amplo espectro de disciplinas requerido para entendimento desse novo campo do saber que se inaugurou com o nome de “acupuntura” no ocidente. Inaugurou-se, mesmo para os que não têm essa consciência, articulando a neuropsicologia do efeito placebo e das relações estímulo - resposta à antropologia médica ou antropologia da saúde (o ramo dessa ciência que tem como objeto, por excelência, a interpretação de outras culturas) com a clínica médica fundamentada na neurofisiologia e bioquímica celular dos efeitos da inserção de agulhas em pontos específicos do corpo humano e animal.

Por não possuir um modelo definido de explicação teórica e prática profissional, um novo paradigma há de ser construído e não é uma legislação ou decreto que vai definir sua forma. Esse texto é um rápido passeio por duas das principais explicações biomédicas, deixando de lado (por enquanto) outras teorias e um grande número de textos referentes à experiência milenar chinesa além dos resultados das décadas dessa prática no ocidente. O objetivo é mostrar que esse conhecimento ainda não “dá conta”, não tem poder explicativo, para as amplas possibilidades de efeitos da acupuntura, reconhecendo, porém o seu valor e complexidade.

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